Quem são os Guarani-Kaiowá?

Foto: Danilo Arenas Ireijo/Guarani Kaiowá de Dourados

Quando os europeus chegaram à América do Sul, no século XVI, os Guarani eram uma população de mais de 1 milhão de indígenas e ocupavam um território de dezenas de milhões de hectares: desde o litoral de São Paulo, quase toda a região Sul do país, até parte da Argentina e uma boa parte do Paraguai.

Ao longo da história, as diferentes comunidades guarani tiveram variadas denominações. Atualmente, no Brasil, existem três grupos: os Guarani Mbya, no litoral do Sudeste e no Rio Grande do Sul, principalmente; os Guarani Nhandeva, ou simplesmente Guarani, como eles se auto-denominam, no sul de Mato Grosso do Sul, interior do Paraná e de São Paulo; e os Guarani Kaiowá, que, em território brasileiro, são encontrados apenas no sul de Mato Grosso do Sul. No Paraguai, os Kaiowá são conhecidos como Pai Tavyterã, e os Nhandeva, por Chiripá, ou Ava Katu Eté. Em outros países, há mais grupos guarani, como os chiriguanos, na Bolívia.

Os Mbya foram os guarani que formaram as missões jesuíticas, no século XVII. Os Kaiowá, por sua vez, habitavam uma região muito erma, as densas florestas da serra do Amambai, onde hoje se localiza a fronteira entre o Mato Grosso do Sul e o Paraguai, entre os rios Apa e Miranda – era a chamada província do Itatim. Por causa das dificuldades de acesso, eles permaneceram praticamente isolados até meados do século XIX.

Depois da Guerra do Paraguai (1864-1870), que, em parte, teve como palco o território Kaiowá, esses índios passaram a ter cada vez mais o contato com os brancos. Nos anos 1880, o governo brasileiro concedeu ao gaúcho Thomas Larangeiras o direito de explorar a erva-mate nativa numa vasta região entre o sul de Mato Grosso, o oeste do Paraná e o leste do Paraguai, com mais de cinco milhões de hectares de extensão.

Foto divulgada na ConeSul News

Progressivamente, até os anos 1940, quando entrou em decadência, essa atividade incorporou os Kaiowá e Nhandeva da região à economia nacional, a partir da contratação de sua mão-de-obra no extrativismo, em troca de bens de consumo como o charque e o sal. Em seguida, entre os anos 50 e 70, os índios continuaram trabalhando na “limpeza” das fazendas de colonos vindos de todas as partes do país que se instalavam na região depois que Getúlio Vargas instituiu, em 1943, a Colônia Agrícola Nacional, em Dourados (MS).

As fazendas da região experimentaram grande impulso, principalmente a partir dos anos 70, quando a economia local se integrou ao mercado internacional, sobretudo com a soja e o gado de corte. Com a mecanização e a especialização em torno dessas atividades, a presença indígena nos fundos de fazenda passou a ser, na maioria dos casos, dispensável e indesejável.

A forma tradicional de organização social Kaiowá e Guarani se dá em famílias extensas. Até cem pessoas moravam numa mesma casa, geralmente perto de um córrego ou rio, em uma região de floresta que oferecesse boa terra para plantio, caça e pesca. As famílias eram lideradas pelo casal mais idoso, experiente e que demonstrasse boas habilidades xamanísticas – para curar e manter a saúde das pessoas, além de boas lavouras e boa caça, todos sinais de uma boa relação com os deuses.

Cerca de três a quatro dessas famílias extensas habitavam a poucos quilômetros umas das outras, formando um tekoha, o que equivale a nossa idéia de comunidade. Embora não haja um pátio central ou casas próximas, essas famílias eram ligadas por casamentos entre seus membros e festas periódicas em que trocavam presentes e realizavam refeições conjuntas – o que mantinha seus laços de solidariedade, cooperação e amizade.

One thought on “Quem são os Guarani-Kaiowá?

  1. Everaldo Nascimento Reply

    Apesar de ser de origem africana, tenho uma ligação espiritual e de solidariedade com os povos indígenas muito grande!!!

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